"Isso se torna resistência. Quando você não deixa o culto do seu Deus, não é só um Deus... Como Xangô. Xangô não é só Xangô divindade. É Xangô herói, Xangô como estado! As divindades na maioria delas, misturavam-se com o próprio lugar, com o próprio culto. Lembrar de Xangô não é só o Orixá Xangô, o Deus Xangô. Era manter a lembrança da onde vÍnhamos."
(Babá Diego de Odé)

Expressões artísticas
Não é de hoje que é feito arte inspirada em ritos religiosos. O teatro, por exemplo nasceu de um culto religioso. A arte sacra católica existe aos olhos de todos. Com o Candomblé não poderia ser diferente, visto que é uma religião que expressa sua identidade por narrativas mitológicas, música e dança.
"Quando uma novela retrata a vida de uma filha de santo, de uma pessoa do Orixá,
dos preconceitos que essa pessoa vive. Isso acaba aliviando o peso social, valoriza mesmo."
Babá Diego de Odé
Mesmo que algumas casas mais "ortodoxas e tradicionais" não tratem de forma positiva as expressões artísticas influenciadas pelo Candomblé por ainda existir uma cultura de distanciamento do homem-divindade herdada do catolicismo, outra grande parte acredita que pode ser feito arte a partir dele sim. Desde que haja contextualização histórica e cultural, não tratando a religião apenas de maneira comercial e folclórica, esse tipo de trabalho artístico acabar por ser algo extremamente válido, bonito de se apreciar e que agrega representatividade. Tornando isto como um meio de diminuir um pouco do receio e pré-conceito causado por falta de informação e demonização feita por uma sociedade majoritariamente cristã. Para criar algo artístico, existem formas de fazer com que as divindades não se ofendam e entendam que a obra construída é uma representação artística e não algo sagrado.
"Sendo a palavra Xirê diversão, felicidade e brincadeira; a fé tem que trazer alegria também."
Babá Diego de Odé
Um dos significados da palavra "Candomblé" é festa, desta forma, seu culto não poderia existir sem a música, que é uma das suas maiores e mais conhecidas características. A musicalidade é assim como a MITOLOGIA, parte muito importante da ritualística, se tornando indispensável, afinal, é a partir dela, que as lendas também são contadas. Tudo no culto é cantado, tocado e dançado. A música é utilizada para encantar folhas, pedir permissões e contar histórias, possibilitando a chamada e a saudação dos Orixás, pois, é a partir dela que ocorre a comunicação entre os seus filhos e eles, acordando memórias ancestrais e dando espaço para que eles dancem de acordo com a história que está sendo contada.
"A música é a nossa Bíblia. A música, a dança é aquilo que mantém vivo as lendas e histórias [...]
Permanece a memória da nossa divindade."
Babá Diego de Odé
Os ritmos e cantigas determinam também os fundamentos que estão sendo feitos na ritualística. Elas narram histórias, ensinando como alguns desses rituais devem ser feitos. Em muitas, também estão presentes representações de sons emitidos por elementos utilizados pela comunidade para que o ritual possa ser realizado, como búzios, animais, água, pulseiras.
"As coisas de orô, de fundamento, eu acho que eles tinham uma preocupação tanto
em guardar o que eles faziam, porque era uma coisa de fundamentar o encantamento
pra gente, e é perfeito, o Iorubá é perfeito."
Babá Diego de Odé
Cada Orixá tem seus ritmos, cantigas e movimentos próprios trazidos pelos nossos ancestrais, com o tempo receberam influências dos povos nativos brasileiros. Uma pessoa iniciada, deve aprender um repertório de danças, ritmos e cantigas, caso contrário, a execução do ritual não seria possível. O ritmo do próprio Orixá regente se torna permanente para o iniciado de acordo com a experiência do iniciado nos ritos, sendo assim, quando os toques dos atabaques que estão chamando seu Orixá estão sendo feitos, a identidade do iniciado se identificará e responderá, causando o transe, que é a aproximação entre o filho e o Orixá, proporcionando que a divindade se manifeste a partir do despertar de uma memória ancestral que há no misto de humano-divindade ali presente.
"A dança é algo que cada tribo trouxe um pouquinho [...]
sendo que misturou, obviamente com a religião indígena. a gente não pode ser hipócrita
em falar que o Candomblé é puramente africano, não é."
Babá Diego de Odé
A dança dos filhos no xirê se diferencia da dança do Orixá que está presente dando rum, devendo ser sempre mais contida, pois e realizada apenas para referenciá-los. Quem deve brilhar no barracão é o Orixá. Deste modo, os filhos também estão deixando de lado a vaidade sem tornar o Candomblé público em algo folclórico e performático, pois por mais que o Candomblé "de verdade" aconteça em ritos internos e de forma secreta apenas para iniciados iniciados, a festa pública é realizada para comemorar e festejar que tudo feito antes deu certo.
