"Isso se torna resistência. Quando você não deixa o culto do seu Deus, não é só um Deus... Como Xangô. Xangô não é só Xangô divindade. É Xangô herói, Xangô como estado! As divindades na maioria delas, misturavam-se com o próprio lugar, com o próprio culto. Lembrar de Xangô não é só o Orixá Xangô, o Deus Xangô. Era manter a lembrança da onde vÍnhamos."
(Babá Diego de Odé)

KETU: UM POUCO DA ÁFRICA RAMIFICADA NO BRASIL
Com a mistura de negros de regiões diferentes, surgiram diversas Nações de Candomblé. Os Sudaneses se concentraram sobretudo na Bahia e Pernambuco e eram divididos principalmente entre Iorubás/Nagôs e Jêjes. Por parte de alguns dos Iorubás originados da região de Benim, se formou o Ketu, uma das maiores e mais conhecidas Nações de Candomblé.
"A Nação é uma memória de onde nós viemos."
Babá Diego de Odé
Em torno do ano de 1830, na cidade de Salvador, foi realizada uma subdivisão dos Iorubás/Nagôs o primeiro culto religioso de matrizes africanas registrado no Brasil, fundado por princesas originadas de Ketu e Oyó, regiões da atual República de Benim: Iyá Nassô, Iyá Adetá e Iyá Kalá. Os rituais que antes eram feitos em um engenho de cana ganharam um templo, o Ilê Iyá Nassô Oká (Casa da Mãe Nassô), mais conhecido como Casa Branca do Engenho Velho (anteriormente Barroquinha) que de acordo com a tradição cultural e religiosa do lugar de onde vieram, se deu início a Nação de Candomblé Ketu, que faz alusão ao antigo reino de mesmo nome e aos costumes de sua região. Diferencia-se das outras nações por utilizar em seus rituais o idioma Iorubá, pelo culto aos Orixás, suas cores e objetos representativos, os toques de seus atabaques, as cantigas, as rezas, entre outros.
"Existiam outras casas antes da casa branca, só que isso perdeu-se o histórico.
e aí pra quem vai trabalhar isso no sentido teológico da coisa, mais científico,
não vai conseguir esse registro de forma tão fácil.
Então: 'a primeira casa foi a Casa Branca',
mas nós sabemos que não foi a Casa Branca. Ela foi a primeira casa registrada."
Babá Diego de Odé
Com o passar do tempo e a chegada de outros negros africanos na cidade, o Ilê Iyá Nassô Oká teve o seu modelo de culto adotado mais facilmente por eles do que o catolicismo, por ser mais próximo do que era cultuado na África, se espalhando rapidamente e fazendo do Ketu a Nação de Candomblé mais popular do país. De acordo com o Mapeamento de Terreiros fundados até 2006 feito pela UFBA, 674 de 1165 das casas de Candomblé da cidade de Salvador são da Nação Ketu. Portanto, a nação não se limitou apenas à Bahia, sendo que de acordo com Prandi (2001), em torno de 230 terreiros do Estado de São Paulo são também de Ketu. Apesar de existirem tantas ramificações pelo país, os terreiros tentam manter sempre o ritual tradicional de sua matriz.
Uma das principais tradições mantidas entre estas casas é a oralidade. Utilizando a MITOLOGIA como instrumento, assim como é feito também na Religião Tradicional Iorubá, que por não haver (até um certo tempo) nenhuma forma de escrita, tudo era feito com base na fala. Este conhecimento pode ser passado em forma de Orikis, como também uma forma de contação de histórias. A oralidade se manteve presente no culto, pela necessidade de confiança de negro para negro, não podia haver provas que suas divindades eram cultuadas naquele local, fazendo com que os conhecimentos fossem passados muito cuidadosamente apenas a pessoas certas. A partir disso, vem o Ofó, a força da palavra, o feitiço, a magia. Tudo que é ensinado com palavras de quem tem aquele Axé, tem mais força do que algo lido ou aprendido de outras formas que não sejam com alguém mais experiente.
"A oralidade é tão importante porquê eu tenho que transmitir pra quem eu tenho confiança,
porque isso poderia levar minha vida."
Babá Diego de Odé
Para que essa troca de conhecimentos aconteça, os filhos da casa sentam-se em círculo e os mais velhos contam os Itans, histórias “do tempo que os Orixás habitavam a Terra”. Essas histórias sempre têm mais de uma versão, pelo fato de serem contadas em vários lugares diferentes. Porém, mesmo em versões distintas, tem a mesma base e propósito. A MITOLOGIA para o Candomblé está assim como a Bíblia para os cristãos. A partir desses itans o que é secreto, as danças, as cantigas e a liturgia do culto ganham forma e se desenvolvem. É com base neles que há uma explicação para tudo e para todas as situações, independente se são passadas, presentes ou futuras.
