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Itan de criação do candomblé - Reginaldo Prandi
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CANDOMBLÉ: UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA

"O negro vendia o negro, só que o homem branco é que

manipulou todo esse processo escravagista."

Babá Diego de Odé

          Observando uma situação escravagista já existente a partir de guerras intertribais causadas por rivalidades territoriais no continente africano desde a época do Antigo Egito, os europeus que precisavam de mão de obra barata na época da colonização do Brasil, manipularam as tribos mais fortes, para que escravizassem ainda mais os seus adversários, fazendo-os enxergar esta situação também como possibilidade de lucro. Quem era derrotado era posto à venda ou trocado por produtos e enviado para as colônias em porões de navios, chamados também de tumbeiros, por haver muitas mortes causadas por falta de condições básicas de sobrevivência humana e pela depressão causada pela retirada desses povos de suas famílias. É importante frisar que por mais que tenha existido escravidão doméstica antes dos europeus chegarem na África e haver participação dos próprios africanos no tráfico desses escravos, a visão capitalista de escravidão mercantil foi dada pelos europeus. Antes da colonização começar a acontecer os povos que eram escravizados entre si não eram tratados como mercadoria que tinham seus corpos vistoriados para determinar um preço a partir de suas condições físicas e ainda mantinham seus direitos como humanos, podendo inclusive ocupar cargos altos na sociedade em que viviam.

 

 

​"Existia uma terra a ser colonizada, não se tinha

mão de obra suficiente e se apropriou de duas guerras."

Babá Diego de Odé

          Sabendo que a África é um continente gigante, é errôneo pensar que todos os povos foram trazidos juntos para o Brasil. Os primeiros a chegar ao país, em torno de 1559 e 1560, foram os Bantos originados de onde hoje localizam-se Angola, Congo e Moçambique. Concentrando-se no interior dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e Maranhão. Foi o grupo étnico que teve maior dificuldade em aprender a língua dos colonizadores (português), por viver mais isolado e distante dos centros urbanos. Por este motivo, também não tinham tantas alternativas para obter renda e organizar e institucionalizar seus cultos religiosos, mesmo sendo os primeiros a chegarem ao país. No dia 12 de outubro de 1657, houve um tratado de paz apresentado pela rainha Nzinga, que causou o fim do tráfico de pessoas da região de Angola pelos portugueses, fazendo com que missionários católicos fossem permitidos a entrar no país a fim de criar um império cristão na África, o que proporcionou a finalização de uma época de lutas militares que existia desde 1575. Após a proibição do comércio escravocrata na região Banto, os traficantes se deslocaram para a Costa da Mina, onde ocorria uma guerra entre os povos fons e iorubás, buscando além de mão de obra que proporcionava o tráfico desses povos africanos para o Brasil, riquezas minerais.

             

 

 

 

 

 

"A RIQUEZA NÃO ERA SÓ A MÃO DE OBRA, EXISTIA COBRE, EXISTIA

OUTRAS COISAS QUE FAZIAM COM QUE ELES FOSSEM PRAQUELA TRIBO E

APROVEITA-SE TUDO, INCLUSIVE A MÃO DE OBRA ESCRAVA"

Babá Diego de Odé

         A partir de os povos denominados como sudaneses começaram a ser trazidos para o Brasil. Os ewes vieram do Togo e os ashantis e minas de Gana, e foram direcionados em maior parte para o Maranhão e outros pequenos grupos para a Bahia e Pernambuco. Os fons vieram do Daomé e os iorubás de Ilexá, Oyó, Ketu, Abeokutá, Ekiti, Ondô, Ijexá, Egbá, Egbado (região onde hoje se situa a Nigéria), que foram direcionados mais fortemente para centros urbanos da Bahia, Pernambuco e Maranhão, havendo também pequenos grupos enviados para o Rio de Janeiro e São Paulo.  Esses africanos foram trazidos em navios negreiros, misturados, tendo famílias e grupo étnicos inteiramente separados para que não pudessem se comunicar. Essa situação foi pensada e posta em prática para que eles fossem mais proativos no trabalho e aceitassem as condições de conversão religiosa impostas pela Igreja Católica, que confiava aos senhores de engenho a tarefa de passá-los a educação cristã, forçá-los a adotar as crenças dos brancos e, na maioria das vezes, até mudar seus nomes e serem marcados com ferro quente sobre de suas marcas tribais para que a "maldição africana" fosse retirada.

         Após um tempo, mesmo com toda dificuldade de comunicação e por também muitas vezes serem de regiões rivais, os povos africanos se uniram, deixaram suas diferenças de lado e conseguiram assimilar a língua portuguesa por estarem inseridos no meio comercial entre os senhores de engenho, o que facilitou a comunicação entre eles, que mesmo provenientes de diversas regiões, agora conseguiam se comunicar de maneira mais eficaz. As etnias predominantes no Brasil eram os Bantos, que cultuavam os Inkissis e os Sudaneses que cultuavam por sua vez Orixás (Iorubás) e Voduns (Fon) e cada região tinha um culto único para determinada divindade, porém, com a interação destes povos, a saudade da família, a necessidade de manterem vivas suas identidades e as memória dos locais de onde vieram, os cultos miscigenaram e se fundiram, iniciando um entrelaçamento cultural que resistiu à toda perseguição da Igreja Católica na época. Assim, se deu início a um culto propriamente brasileiro que não existe na África. Essas reuniões ficaram conhecidas como Candomblé.

           

"O candomblé se formou pela necessidade de família,

as famílias foram desmembradas."

Babá Diego de Odé

           Os Bantos por estarem aqui há mais tempo, já tinham uma nova forma de culto aos seus ancestrais um pouco mais sistematizada, a qual refletia a partir de sua liturgia situações de memórias que eram guardadas do seu cotidiano desde antes da colonização até o momento atual que eles viviam.  Desta maneira, quando os povos de outras regiões chegaram e começaram a se comunicar, foram utilizando alguns dos seus elementos para poder formar seus próprios cultos também, adicionando além dos seus costumes locais, alguns outros novos que não eram reflexo realmente do local de onde vinham, mas era uma forma de se unificar com os que estavam aqui antes deles. Desta forma, além da influência dos próprios africanos entre si, houveram também entre eles e os indígenas, absorvendo muitas coisas de sua forma de culto aos ancestrais, medicina, danças e músicas.

 

"A cultura e o processo de escravidão como foi o nosso, criou

novos costumes. Pra não esquecermos, pra manter a

memória ancestral viva."

Babá Diego de Odé

        Por na época ser proibida qualquer outra forma de religiosidade que não fosse a católica, os povos escravizados enxergaram como solução para que os senhores de engenho não descobrissem que eles estavam adorando deuses não-cristãos e os encontrassem em meio a algo suspeito, sendo como consequência disso aprisionados, açoitados e muitas vezes mortos caso não negassem sua crença frente à toda comunidade presente, faziam analogias das suas divindades com santos católicos para a realização dos seus rituais de forma mais livre, numa tentativa de diminuir a perseguição, surgindo assim o Sincretismo Religioso dentro do Candomblé, que foi muito importante para que a sobrevivência do culto e dos seus adeptos época. Nos dias atuais, esse sincretismo continua sendo adotado por muitas outras religiões de matrizes africanas que não se configuram como Candomblé, havendo apenas algumas influências dentro de seus ritos e dogmas próprios, como por exemplo o Omolokô, o Terecô e a Umbanda.

             

 

 

 

"O mistério preservou nossos ancestrais vivos [...] Nossa religião sobreviveu

pelo sincretismo [...] Mas acredito que Nós não precisamos mais nos apoiar em outra cultura,

outra religião pra falar que somos fé. nós somos religião!"

Babá Diego de Odé

       Mesmo após as leis do Ventre Livre (1850), dos Sexagenários (1871) e Áurea (1888), o povo negro que era tratado como mercadoria ou até mesmo animais na época da escravatura, continuou sendo inferiorizado e enxergado pela sociedade com fetiches eurocêntricos que os tratava como uma “raça inferior” e menos dotada de racionalidade. Desta forma, tudo que era “de negro” era apresentado como ruim e sujo, com a intenção de evitar que a sua cultura fosse vista de forma positiva e se difundisse no país. Como a população negra começou a crescer não só por se relacionarem entre si, mas também com a miscigenação forçada causada por muitos estupros que mulheres escravizadas sofriam por seus próprios senhores de engenho, o preconceito racial aumentou junto com as ideias dos higienistas que chegaram ao Brasil por volta dos séculos 19 e 20, causando uma tentativa de "embranquecimento da população" fazendo com que a nação preferisse trazer mão de obra de imigrantes de países europeus e asiáticos e aceitar sua cultura ao invés de introduzir perante a sociedade e dar oportunidades de vida digna aos negros que foram explorados anteriormente, deixando muitos deles sem ter onde viver e trabalhar após a abolição da escravatura.


 

 

             

 

                                  "O candomblé vai tratar sempre comer e defecar de uma forma natural; o sexo de uma

forma natural, como forma de procriação. Nós entendemos que o catolicismo

que era o momento que nossos ancestrais  vieram pra cá, demoniza tudo isso [...]

Óbvio, enfraquecer a fé do povo que eu escravizo, faz que o povo se enfraqueça.

É um processo muito natural: Eu vou diminuir a sua família, eu vou diminuir o que você é,

o que você veste, a sua identidade, para que eu seja predominante. é uma forma de controle, de domínio."

Babá Diego de Odé

       Pelo fato de tanto na religião tradicional Iorubá, quanto no Candomblé, que foi criado posteriormente, não se acreditar em pecado, em diabo, em inferno, ou que os prazeres da carne são coisas ruins ao invés de naturais, uma deturpação dos ideais desses cultos não-cristãos foi mais fácil de acontecer. A falta de uma figura demoníaca era tudo o contrário do que o catolicismo pregava e queria que acreditassem como verdade absoluta,  e que, por sua vez, se fortalecia conseguindo o controle da população que os seguia através do medo do julgamento que seria feito um dia por seu deus ditador aos seus súditos, os ameaçando com a figura da prisão eterna no inferno caso eles não fossem obedientes. Foi nesse ponto que a imposição do povo de Candomblé foi necessária para fortalecer e criar uma resistência que foi essencial na sua sobrevivência. Sua forma de culto diferenciada por haver música, dança, roupas específicas e sacrifícios, também era motivo de medo, por serem considerados costumes primitivos.

        

        Mesmo após o decreto de Ruy Barbosa em 1890, que defendia a liberdade religiosa, essa não era uma realidade posta em prática. Houveram muitos ataques militares a casas de candomblé por todo país, sendo um dos casos mais conhecidos, os ataques aos Candomblés de Alagoas em 1912, que forçavam os adeptos a fazer seus cultos escondidos e em silêncio. A laicidade do Brasil foi oficialmente declarada em sua constituição no ano de 1964 e mesmo assim, ainda em 1976 na Bahia, onde há a maior população negra do Brasil, as instituições religiosas precisavam fazer registros nas delegacias para avisar o seu calendário religioso. Mesmo com tantas restrições, tudo foi visto como o início de uma grande vitória, mesmo através de muito sofrimento, o direito de poder escolher o que cultuar. 

Nossa religião é em cima da resistência, em cima do poder da adaptação.

O Orixá se adaptou ao sincretismo, se adaptou a um monte de coisa pra hoje a gente tá aqui falando de Orixá."

Babá Diego de Odé

          Nos dias de hoje, mesmo com a liberação do culto e muitos trabalhos de conscientização contra a intolerância religiosa, é denunciado um caso a cada quinze horas no Brasil e os candomblecistas ainda são vistos como malditos que fazem feitiços para destruir vidas e sacrificam animais sem nenhuma necessidade. Mas, na verdade, é apenas um culto aos elementos da natureza e ao planeta Terra, que respeita e cuida da mesma com muito amor. Nenhuma folha é retirada de uma árvore sem necessidade e sem a permissão dos Orixás e cada animal sacrificado é utilizado na alimentação da comunidade e nada dele é desperdiçado, enquanto a maior parte das pessoas que criticam, estão alimentando um mercado cruel de exploração animal.

    

         O povo do Axé é de luta, que passou muito tempo precisando se esconder para conseguir sobreviver e alcançar o direito de cultuar sua fé em liberdade. Portanto, hoje quanto mais seus adeptos fortalecem a identidade do seu povo perante a sociedade, mais a religião é fortalecida e vista com normalidade por aqueles que os rodeiam. A identidade fortalece a resistência, que é uma palavra utilizada diariamente no nosso cotidiano porque somos uma religião fundada por ancestrais negros que foram arrancados de seu continente para serem escravizados, açoitados, explorados e perseguidos. Que não eram tratados como seres humanos e não tinham direito de ser quem eram nem de acreditar no que queriam. Mas, que resistiram à uma época difícil como a da escravidão, resistiram à Igreja Católica Estado e ao serem jogados nas ruas ao léu após a Lei Áurea, totalmente sem rumo e sem oportunidades de vida digna. E depois de tudo isso, nós estamos aqui, resistindo dia após dia, nos identificando e mostrando que existimos. O que aconteceu no passado serviu para mostrar que somos fortes e livres, não importa o que possa acontecer futuramente. Nunca conseguirão calar os nossos tambores, não voltaremos pra senzala!

"A resistência cria hábitos e identidade [...] Se a gente não encarar esse processo

como algo natural, a gente não pode esperar que os outros irmãos de outras religiões não fazerem

a mesma coisa. Eles nunca vão respeitar aquilo que até nós escondemos [...]

Quando você esconde sua fé e trata dessa maneira, pra sociedade e pra comunidade é

porque algo que você faz é errado. A naturalidade que você lida com isso é o

que vai fazer você ser aceito, sua religião ser aceita. quanto mais você se esconde, pior é."

Babá Diego de Odé

Fomos, somos e seremos sempre RESISTÊNCIA!

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